terça-feira, 22 de junho de 2010

5 e 6 de Junho, Teatro Virginia em Torres Novas e Casa da Música no Porto

A memória começa a encavalitar-se. Entre o Museu do Oriente e o concerto que aqui relato houve apenas um showcase na FNAC em Leiria no dia 30 de Maio, no entanto escrevo estas linhas no Verão. e quase 20 dias se passaram. Alguns dias de descanso e planeamento surgiram, antes deste concerto, até porque também havia ensaios e promoção para os dois grandes concertos oficiais de apresentação do disco, entretanto já em primeiro lugar do Top.
Como os ensaios da digressão tiveram lugar no Teatro Virginia em Torres Novas entre 12 e 14 de Abril, o concerto ia saber a uma revisão da matéria dada e um testar de pormenores para os concertos da Casa da Música e CCB, embora sem convidados em palco. Tudo correu bem, a sala estava uma vez mais esgotada e o clube de fans ocupava as primeiras filas. Descobri que um dos técnicos da sala é natural de Coimbra. 
No final do concerto uma parte da comitiva regressava a Lisboa e os restantes ficavam para subir ao Porto no dia seguinte e aproveitar que Serralves estava em Festa e era da grossa. Por volta das 2 da manhã o resto da comitiva chegou de Lisboa e foi toda a gente descansar para o grande dia no Porto. 

A Casa da Música

A Casa da Música (CdM) é um lugar único no Universo. Pelas mais variadas razões apenas naquele sítio acontecem coisas que não ousam manifestar-se em mais nenhum local. Desta vez a coisa não começou bem mas recuperou-se eficazmente. Um erro informático alterou os horários dos técnicos da casa e das 10h00 às 13h00 pouco se pode adiantar. Ainda assim durante as primeiras horas da tarde o palco ficou pronto e os ensaios correram bem. No camarim Mafamude distribuíam-se centenas de convites em centenas de envelopes, preparava-se catering para 25 pessoas, ultimavam-se os últimos detalhes, limavam-se arestas para o dia seguinte em Lisboa. O concerto passou em directo na Antena 3 por isso uma pequena equipa da rádio montou o seu pequeno estúdio por detrás do palco.

A esta distância tudo passou muito depressa. O concerto começou quase a horas pois a multidão que esgotava os lugares da Sala Suggia demorou um bocado a se sentar. Os músicos convidados entraram a tempo e só não saíram porque o hábito de se sentarem após as palmas confundiu os roadies que iam buscar o estrado com rodas. O público aplaudiu de pé e fizeram-se os dois encores. A sessão de autógrafos iria ser longa dada a excitação do público.

Após estas coisas todas a equipa dividiu-se de novo e produtores e técnicos seguiram directamente para Lisboa, sem passar pela casa da partida nem recolher os 2.000 escudos. Todo o caminho se ouviu a M80, a tal rádio que passa o pior dos anos 70, 80 e 90 e já agora também podia dar notícias dessa altura. Aposto que ninguém se lembra de dormir essa noite, pois às 9h30 já estávamos à porta do cais de descarga do CCB.

terça-feira, 15 de junho de 2010

De Rabat ao Oriente


Escrevo as primeiras linhas deste texto sobre o azul do Oceano Atlântico, apenas salpicado por  cachos de nuvens brancas.

A viagem para Rabat começou na terça dia 25 à hora do almoço. A comitiva ia alargada devido à equipa da RTP e ao documentário. O check-in demorou um pouco mais do que o esperado e praticamente eliminou todo o tempo de espera até ao embarque.

A bordo de um avião a hélices levantámos rumo ao sul, preparados para cerca de duas horas até Casablanca. Por qualquer razão, quando chegámos às malas, já o tapete estava vazio e apenas as nossas coisas restavam abandonadas. Os carros das malas estavam quase todos estragados, entre rodas encravadas e outras quadradas, não facilitaram o transporte da carga até às carrinhas. Para mais fomos obrigados a esperar porque a alfândega tinha escolhido como cepo de marradas o cameramen da RTP que nos acompanhava. Começaram por pedir a autorização para filmagens mas segundo ele próprio, o que todos estavam à espera era de umas notas de Euro. Com alguns telefonemas o Festival desbloquearam a coisa seguimos para norte em direcção a Rabat divididos em duas carrinhas. Na auto-estrada as carrinhas não podem andar a mais de 80Km/h e demorámos quase duas horas a chegar ao Hotel em Rabat e ir jantar. Salada de atum e tajine de borrego acompanhou a cerveja marroquina. Combinaram-se as coisas para o dia seguinte, falou-se de algumas questões críticas relativas à digressão americana e foi tudo dormir.

A hora de saída do hotel eram as 10 e meia e pouco depois já estávamos a caminho nas ruas atarefadas da capital. Fomos directamente para o teatro Mohamed V. Chegados lá vimos subir os instrumentos e afins por um rudimentar elevador que atingia os 5 metros de altura e dava acesso à parte de trás do palco. Demos a volta por fora e após vários controles de segurança e uns lances de escadas entrámos num comprido corredor repleto de fotografias que finalizava na parte de trás do enorme palco. O primeiro problema que surgiu foi no acesso da equipa da RTP ao Teatro. Apesar dos pedidos de autorização a burocracia atrasou o processo e só após o director do teatro permitir a equipa de reportagem ela pode entrar e filmar. As montagens entretanto iniciaram-se com a ajuda de muitos locais e por volta da uma da tarde era tempo de ir almoçar. Ali, o produtor encarregado de nos acompanhar tinha levado os músicos até ao Souk, a tradicional zona comercial da cidade. Fomos lá ter com eles e aproveitei para procurar por uma lamparina com génio. Estão esgotadas desde o tempo do Ali Baba, agora já só se encontram réplicas de má qualidade. De lá seguimos para o Hotel para almoçar, já sem nenhum dos técnicos que acabaram por ficar e voltar para o Teatro para trabalharem na preparação do som e da luz. Após o almoço regressámos ao Teatro para se fazerem os testes de som e luz. Apenas se abandonou o auditório para uma entrevista num hotel perto onde os locutores bebiam vinho na esplanada junto à piscina enquanto entrevistavam alguns dos artistas que participavam no Festival.

A sala tinha cerca de 1500 lugares o que intimida um pouco uma primeira vez num país, no entanto tudo correu bem e o público presente gostou bastante e aplaudiu de pé. Apenas duas coisas estranhas aconteceram. A primeira foi ainda antes do início do concerto quando um senhor de fato, gravata e mala de couro preta me diz que me quer pagar. Imaginei imediatamente um cenário do filme Casablanca que tenha sido cortada da edição final. Um agente do governo com uma mala cheia de notas e possivelmente uma arma na cintura, avisa que me vai pagar o cachet e que precisa de uma factura, recibo e fotocópia do meu passaporte. Eu respondo-lhe que já recebemos o cachet do nosso agente em França. O meu Francês é tão mau como o seu Inglês e metade perde-se na tradução. Entretanto ele agita a pasta no meu sentido e insiste na factura e  na cópia do passaporte, eu digo-lhe que vou ligar ao agente francês com quem ele quer falar mas ele não atende o telefone e apenas lhe consigo deixar uma mensagem em que digo: “Está aqui um tipo de fato com uma pasta cheia de dinheiro para te dar. Liga para o número xyz e combina com ele”. Como enquanto isto acontecia o concerto estava prestes a começar consegui-me escapulir fugindo para a zona de acesso ao palco, um território onde os senhores de fato não ousam entrar porque normalmente se desintegram em fumo verde.
A segunda coisa coisa estranha foi  a ausência de desejo de encore. Talvez o público seja tão bem educado que não pede mais do que lhe dão. A parte chata desta estranha obediência foi que não cheguei a tempo da venda de CD’s, pois aproveito sempre esse tempo do encore para montar a banca e organizar os trocos. Só consegui vender dois. Houve também um ramo de flores que ficou por ser entregue em palco o que quase se aproximou de um erro de protocolo. Felizmente o exército não reagiu violentamente.

Após o concerto no regresso ao Hotel cruzei-me de novo com o senhor de fato que tinha finalmente conseguido falar e pagar ao agente francês. Cumprimentou-me a deu para ver que estava feliz pelo trabalho bem feito. Mais ou menos nessa altura o motorista da carrinha que nos seguia com os instrumentos, passa-me uma mala com equipamento para as mãos, olha-me nos olhos e com um grande sorriso aponta os polegares para ao céu enquanto diz: “Cristiano Rolando”. Os marroquinos são provavelmente o povo mais simpático do mundo.

No dia seguinte saímos para Casablanca depois do pequeno-almoço. A auto-estrada não permitia que as carrinhas seguissem a mais de 80Km/h e em câmara lenta revimos a pobreza que acompanha a serpente de asfalto.

Chegámos a Lisboa com uma hora de atraso, dividimos o grupo e enquanto uns foram buscar parte do cenário, os músicos seguiram directamente para o Museu do Oriente onde uma entrevista os esperava. Apesar da hora perdida conseguimos recuperar e além de uma pequena gralha no pedido de cervejas tudo correu sem sobressaltos, apenas de apontar que quando fui buscar o cheque e justifiquei que o recibo iria ser enviado por e-mail logo de seguida, a secretária do Sindicato do Magistrados do Ministério Público me responde: "é bom que enviem, ninguém quer problemas com o meu sindicato". Entretanto por mim passava a Jessica de Grazia.

Estranhamente acabo este texto quase três semanas após o ter começado...