Escrevo as primeiras linhas deste texto sobre o azul do Oceano Atlântico, apenas salpicado por cachos de nuvens brancas.
A viagem para Rabat começou na terça dia 25 à hora do almoço. A comitiva ia alargada devido à equipa da RTP e ao documentário. O check-in demorou um pouco mais do que o esperado e praticamente eliminou todo o tempo de espera até ao embarque.
A bordo de um avião a hélices levantámos rumo ao sul, preparados para cerca de duas horas até Casablanca. Por qualquer razão, quando chegámos às malas, já o tapete estava vazio e apenas as nossas coisas restavam abandonadas. Os carros das malas estavam quase todos estragados, entre rodas encravadas e outras quadradas, não facilitaram o transporte da carga até às carrinhas. Para mais fomos obrigados a esperar porque a alfândega tinha escolhido como cepo de marradas o cameramen da RTP que nos acompanhava. Começaram por pedir a autorização para filmagens mas segundo ele próprio, o que todos estavam à espera era de umas notas de Euro. Com alguns telefonemas o Festival desbloquearam a coisa seguimos para norte em direcção a Rabat divididos em duas carrinhas. Na auto-estrada as carrinhas não podem andar a mais de 80Km/h e demorámos quase duas horas a chegar ao Hotel em Rabat e ir jantar. Salada de atum e tajine de borrego acompanhou a cerveja marroquina. Combinaram-se as coisas para o dia seguinte, falou-se de algumas questões críticas relativas à digressão americana e foi tudo dormir.
A hora de saída do hotel eram as 10 e meia e pouco depois já estávamos a caminho nas ruas atarefadas da capital. Fomos directamente para o teatro Mohamed V. Chegados lá vimos subir os instrumentos e afins por um rudimentar elevador que atingia os 5 metros de altura e dava acesso à parte de trás do palco. Demos a volta por fora e após vários controles de segurança e uns lances de escadas entrámos num comprido corredor repleto de fotografias que finalizava na parte de trás do enorme palco. O primeiro problema que surgiu foi no acesso da equipa da RTP ao Teatro. Apesar dos pedidos de autorização a burocracia atrasou o processo e só após o director do teatro permitir a equipa de reportagem ela pode entrar e filmar. As montagens entretanto iniciaram-se com a ajuda de muitos locais e por volta da uma da tarde era tempo de ir almoçar. Ali, o produtor encarregado de nos acompanhar tinha levado os músicos até ao Souk, a tradicional zona comercial da cidade. Fomos lá ter com eles e aproveitei para procurar por uma lamparina com génio. Estão esgotadas desde o tempo do Ali Baba, agora já só se encontram réplicas de má qualidade. De lá seguimos para o Hotel para almoçar, já sem nenhum dos técnicos que acabaram por ficar e voltar para o Teatro para trabalharem na preparação do som e da luz. Após o almoço regressámos ao Teatro para se fazerem os testes de som e luz. Apenas se abandonou o auditório para uma entrevista num hotel perto onde os locutores bebiam vinho na esplanada junto à piscina enquanto entrevistavam alguns dos artistas que participavam no Festival.
A sala tinha cerca de 1500 lugares o que intimida um pouco uma primeira vez num país, no entanto tudo correu bem e o público presente gostou bastante e aplaudiu de pé. Apenas duas coisas estranhas aconteceram. A primeira foi ainda antes do início do concerto quando um senhor de fato, gravata e mala de couro preta me diz que me quer pagar. Imaginei imediatamente um cenário do filme Casablanca que tenha sido cortada da edição final. Um agente do governo com uma mala cheia de notas e possivelmente uma arma na cintura, avisa que me vai pagar o cachet e que precisa de uma factura, recibo e fotocópia do meu passaporte. Eu respondo-lhe que já recebemos o cachet do nosso agente em França. O meu Francês é tão mau como o seu Inglês e metade perde-se na tradução. Entretanto ele agita a pasta no meu sentido e insiste na factura e na cópia do passaporte, eu digo-lhe que vou ligar ao agente francês com quem ele quer falar mas ele não atende o telefone e apenas lhe consigo deixar uma mensagem em que digo: “Está aqui um tipo de fato com uma pasta cheia de dinheiro para te dar. Liga para o número xyz e combina com ele”. Como enquanto isto acontecia o concerto estava prestes a começar consegui-me escapulir fugindo para a zona de acesso ao palco, um território onde os senhores de fato não ousam entrar porque normalmente se desintegram em fumo verde.
A segunda coisa coisa estranha foi a ausência de desejo de encore. Talvez o público seja tão bem educado que não pede mais do que lhe dão. A parte chata desta estranha obediência foi que não cheguei a tempo da venda de CD’s, pois aproveito sempre esse tempo do encore para montar a banca e organizar os trocos. Só consegui vender dois. Houve também um ramo de flores que ficou por ser entregue em palco o que quase se aproximou de um erro de protocolo. Felizmente o exército não reagiu violentamente.
Após o concerto no regresso ao Hotel cruzei-me de novo com o senhor de fato que tinha finalmente conseguido falar e pagar ao agente francês. Cumprimentou-me a deu para ver que estava feliz pelo trabalho bem feito. Mais ou menos nessa altura o motorista da carrinha que nos seguia com os instrumentos, passa-me uma mala com equipamento para as mãos, olha-me nos olhos e com um grande sorriso aponta os polegares para ao céu enquanto diz: “Cristiano Rolando”. Os marroquinos são provavelmente o povo mais simpático do mundo.
No dia seguinte saímos para Casablanca depois do pequeno-almoço. A auto-estrada não permitia que as carrinhas seguissem a mais de 80Km/h e em câmara lenta revimos a pobreza que acompanha a serpente de asfalto.
Chegámos a Lisboa com uma hora de atraso, dividimos o grupo e enquanto uns foram buscar parte do cenário, os músicos seguiram directamente para o Museu do Oriente onde uma entrevista os esperava. Apesar da hora perdida conseguimos recuperar e além de uma pequena gralha no pedido de cervejas tudo correu sem sobressaltos, apenas de apontar que quando fui buscar o cheque e justifiquei que o recibo iria ser enviado por e-mail logo de seguida, a secretária do Sindicato do Magistrados do Ministério Público me responde: "é bom que enviem, ninguém quer problemas com o meu sindicato". Entretanto por mim passava a Jessica de Grazia.
Estranhamente acabo este texto quase três semanas após o ter começado...
A viagem para Rabat começou na terça dia 25 à hora do almoço. A comitiva ia alargada devido à equipa da RTP e ao documentário. O check-in demorou um pouco mais do que o esperado e praticamente eliminou todo o tempo de espera até ao embarque.
A bordo de um avião a hélices levantámos rumo ao sul, preparados para cerca de duas horas até Casablanca. Por qualquer razão, quando chegámos às malas, já o tapete estava vazio e apenas as nossas coisas restavam abandonadas. Os carros das malas estavam quase todos estragados, entre rodas encravadas e outras quadradas, não facilitaram o transporte da carga até às carrinhas. Para mais fomos obrigados a esperar porque a alfândega tinha escolhido como cepo de marradas o cameramen da RTP que nos acompanhava. Começaram por pedir a autorização para filmagens mas segundo ele próprio, o que todos estavam à espera era de umas notas de Euro. Com alguns telefonemas o Festival desbloquearam a coisa seguimos para norte em direcção a Rabat divididos em duas carrinhas. Na auto-estrada as carrinhas não podem andar a mais de 80Km/h e demorámos quase duas horas a chegar ao Hotel em Rabat e ir jantar. Salada de atum e tajine de borrego acompanhou a cerveja marroquina. Combinaram-se as coisas para o dia seguinte, falou-se de algumas questões críticas relativas à digressão americana e foi tudo dormir.
A hora de saída do hotel eram as 10 e meia e pouco depois já estávamos a caminho nas ruas atarefadas da capital. Fomos directamente para o teatro Mohamed V. Chegados lá vimos subir os instrumentos e afins por um rudimentar elevador que atingia os 5 metros de altura e dava acesso à parte de trás do palco. Demos a volta por fora e após vários controles de segurança e uns lances de escadas entrámos num comprido corredor repleto de fotografias que finalizava na parte de trás do enorme palco. O primeiro problema que surgiu foi no acesso da equipa da RTP ao Teatro. Apesar dos pedidos de autorização a burocracia atrasou o processo e só após o director do teatro permitir a equipa de reportagem ela pode entrar e filmar. As montagens entretanto iniciaram-se com a ajuda de muitos locais e por volta da uma da tarde era tempo de ir almoçar. Ali, o produtor encarregado de nos acompanhar tinha levado os músicos até ao Souk, a tradicional zona comercial da cidade. Fomos lá ter com eles e aproveitei para procurar por uma lamparina com génio. Estão esgotadas desde o tempo do Ali Baba, agora já só se encontram réplicas de má qualidade. De lá seguimos para o Hotel para almoçar, já sem nenhum dos técnicos que acabaram por ficar e voltar para o Teatro para trabalharem na preparação do som e da luz. Após o almoço regressámos ao Teatro para se fazerem os testes de som e luz. Apenas se abandonou o auditório para uma entrevista num hotel perto onde os locutores bebiam vinho na esplanada junto à piscina enquanto entrevistavam alguns dos artistas que participavam no Festival.
A sala tinha cerca de 1500 lugares o que intimida um pouco uma primeira vez num país, no entanto tudo correu bem e o público presente gostou bastante e aplaudiu de pé. Apenas duas coisas estranhas aconteceram. A primeira foi ainda antes do início do concerto quando um senhor de fato, gravata e mala de couro preta me diz que me quer pagar. Imaginei imediatamente um cenário do filme Casablanca que tenha sido cortada da edição final. Um agente do governo com uma mala cheia de notas e possivelmente uma arma na cintura, avisa que me vai pagar o cachet e que precisa de uma factura, recibo e fotocópia do meu passaporte. Eu respondo-lhe que já recebemos o cachet do nosso agente em França. O meu Francês é tão mau como o seu Inglês e metade perde-se na tradução. Entretanto ele agita a pasta no meu sentido e insiste na factura e na cópia do passaporte, eu digo-lhe que vou ligar ao agente francês com quem ele quer falar mas ele não atende o telefone e apenas lhe consigo deixar uma mensagem em que digo: “Está aqui um tipo de fato com uma pasta cheia de dinheiro para te dar. Liga para o número xyz e combina com ele”. Como enquanto isto acontecia o concerto estava prestes a começar consegui-me escapulir fugindo para a zona de acesso ao palco, um território onde os senhores de fato não ousam entrar porque normalmente se desintegram em fumo verde.
A segunda coisa coisa estranha foi a ausência de desejo de encore. Talvez o público seja tão bem educado que não pede mais do que lhe dão. A parte chata desta estranha obediência foi que não cheguei a tempo da venda de CD’s, pois aproveito sempre esse tempo do encore para montar a banca e organizar os trocos. Só consegui vender dois. Houve também um ramo de flores que ficou por ser entregue em palco o que quase se aproximou de um erro de protocolo. Felizmente o exército não reagiu violentamente.
Após o concerto no regresso ao Hotel cruzei-me de novo com o senhor de fato que tinha finalmente conseguido falar e pagar ao agente francês. Cumprimentou-me a deu para ver que estava feliz pelo trabalho bem feito. Mais ou menos nessa altura o motorista da carrinha que nos seguia com os instrumentos, passa-me uma mala com equipamento para as mãos, olha-me nos olhos e com um grande sorriso aponta os polegares para ao céu enquanto diz: “Cristiano Rolando”. Os marroquinos são provavelmente o povo mais simpático do mundo.
No dia seguinte saímos para Casablanca depois do pequeno-almoço. A auto-estrada não permitia que as carrinhas seguissem a mais de 80Km/h e em câmara lenta revimos a pobreza que acompanha a serpente de asfalto.
Chegámos a Lisboa com uma hora de atraso, dividimos o grupo e enquanto uns foram buscar parte do cenário, os músicos seguiram directamente para o Museu do Oriente onde uma entrevista os esperava. Apesar da hora perdida conseguimos recuperar e além de uma pequena gralha no pedido de cervejas tudo correu sem sobressaltos, apenas de apontar que quando fui buscar o cheque e justifiquei que o recibo iria ser enviado por e-mail logo de seguida, a secretária do Sindicato do Magistrados do Ministério Público me responde: "é bom que enviem, ninguém quer problemas com o meu sindicato". Entretanto por mim passava a Jessica de Grazia.
Estranhamente acabo este texto quase três semanas após o ter começado...

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