O tempo passa depressa e rapidamente as prioridades mudam deixando o acessório para depois. O texto que segue abaixo foi escrito em duas alturas com quase uma semana de diferença. Talvez se note talvez não, mas por honestidade, aqui fica a informação.
Ao chegar à rent-a-car descubro que nem todos os monovolumes são iguais e que no modelo que me entregavam não era possível viajarmos 4 pessoas e o equipamento.
Felizmente foi possível esperar 20 min. pela viatura que nos acompanhou a Ílhavo e Guimarães.
Após o problema resolvido segui para a Estação do Oriente de onde partimos rumo às Caldas.
Não estava um grande dia para um concerto ao ar-livre. Pelo caminho apanhámos chuva e vento com alguma regularidade, causando a impressão que o dia poderia vir a ser duro.
Chegámos ao palco e fomos almoçar a um restaurante vizinho. Começámos as montagens logo a seguir. O palco não era tão largo como devia e era extremamente alto. Os pendões ficavam demasiado de lado e algumas alterações à iluminação tiveram de ser feitas para conseguir que alguma simetria surgisse no palco, mesmo em frente à Câmara Municipal.
Os camarins eram no centro de exposições da própria Câmara, logo à entrada do lado direito. Apesar do calor provocado pelo telhado de vidro, o local tinha condições para improvisar camarins.
Os músicos atrasaram-se um bocado, mas o pior foi mesmo a maior chuvada que decidiu cair à sua chegada. Em 5 min. o palco ficou quase todo molhado, a aparelhagem de som teve de ser coberta com plásticos e o pior cenário foi temido por todos.
A sequência de azares começou. Mal se chegou ao camarim, AB reparou que uma auto-estrada (sem portagens) de formigas deliciavam-se com as sandes mistas que repousavam num prato de plástico. Estranhamente não atacaram bolachas que estavam mesmo ao lado. Tinham ali pão, queijo e fiambre que chegava para muitos invernos.
A chuva quando resolveu acalmar lá permitiu que o teste de som se fizesse, sempre a medo e com uns sustos pelo meio, mas lá se fez. Entretanto dada a hora do concerto o ideal era jantar antes e ir ao Hotel em Óbidos. O plano que nos fora proposto para o jantar residia num buffet numa sala privada num hotel no centro das Caldas, no entanto o nosso Hotel era em Óbidos e era preciso que PM fosse buscar as t-shirts que iam ser vendidas pela primeira vez após o concerto, ficando nós limitados com os meios de transporte. A solução encontrada passou por um restaurante nas Caldas, perto do Hotel e com boas referências. Seguimos até ao Hotel, um antigo palácio senhorial mesmo em frente às muralhas do Castelo de Óbidos. O ambiente medieval do Hotel era interessante, o cenário recordou-me a série sobre os Tudor que vi há uns meses atrás, o que não é mau sinal. A única parvoíce eram as chaves dos quartos que tinham 20cm, pesavam 200kg e faziam barulho suficiente nas fechaduras para acordar todo o corredor.
No tempo de ir aos quartos antes de jantar MC chegou vinda do norte e passado meia-hora fomos todos jantar. O restaurante de nome Muralha e é recomendável tanto pela comida como pela selecção de vinhos. As sobremesas deixaram toda a mesa em polvorosa.
Como é costume nos jantares antes do concerto, o final foi apressado pela hora e inerente proximidade do início do concerto. Entretanto PM e as t-shirts já tinha chegado e corremos até ao centro das Caldas. Já a poucos metros do palco, fomos obrigados a mover as baias que vedavam o trânsito ao cidadãos e prontamente um polícia de trânsito entrou em acção. Tendo nos mandado parar, preparava-se para me tirar a carta quando percebeu que estava a fazer má figura e que poderia fazer pior se impedisse os músicos e técnicos de se aproximarem do palco. Dois minutos depois estacionámos e seguimos para os camarins debaixo de algum vento e umas pequenas gotas mais teimosas.
A preparação para o início do concerto foi razoavelmente célere e a banda da casa que tocava antes pouco ou nada se atrasou. Sendo os camarins dentro do edifício camarário, uma horda de funcionários andava livremente pelo átrio da Câmara, concentrando-se também no cimo das escadas junto às portas. Entre eles estava o presidente da Câmara e os diversos assessores, vereadores, secretários, etc. que conversavam despreocupadamente enquanto nós tentávamos que o concerto começasse. Pouco depois começou. Foi um alivio. A chuva não afastou as pessoas e não foi abundante o suficiente para prejudicar a aparelhagem de som e luz. A praça estava completamente cheia e a festa foi grande. No entanto várias coisas aconteceram fora do palco durante o concerto. A primeira foi logo após o início quando fomos buscar a mesa para venda dos discos e t-shirts. Estamos nós a pegar na mesa e dizem-nos que o senhor presidente tinha a intenção de oferecer uma prenda ao grupo no final do concerto. Concordámos com alegria e gratidão, os camarins são os locais ideais para esse tipo de generosidade, no entanto a intenção não era uma oferta discreta no camarim mas sim no palco, provavelmente com direito a caloroso discurso político pelo meio. Felizmente o ano passado tivemos três eleições neste país e dos 80 concertos que produzi, pelo menos em 2/3 esta situação surgiu. Já tenho pelo menos 10 bons argumentos para não aceitar tal proposta. Estudar marketing político e comunicação eleitoral só ajudou a fundamentar tais argumentos, mas não mudou a desilusão criada nos generosos promotores. Do ponto de vista político é uma oportunidade de discursar para milhares de pessoas, numa altura em que as pessoas estão fragilizadas pela emoção que a música cria e num momento em que as pessoas estão gratas pela oferta da autarquia. Mas infelizmente os valores artísticos são mais fortes, a submissão da arte ao poder ganhou alguns pontos desde o tempo em que os papas eram os patronos e hoje já é possível evitar este tipo de constrangimentos. A um preço, é certo já que aquele político e os seus não vão perdoar por muito tempo a desfeita que o artista por ele contratado lhe fez. Por outro lado os políticos são mais voláteis que material de escritório e felizmente ainda há gente séria para valorizar estas atitudes moral e eticamente louváveis. Mas não foi apenas isto que se passou e nem tudo são coisas más. Houve também uma associação de solidariedade social que ensaiou uma coreografia para uma das músicas. Pelo que soubemos não foi a primeira vez e houve um contacto prévio com a produção. Eram cerca de 200 pessoas que estavam bem na frente do palco e que num certo tema particularmente conhecido começaram a mexer-se conforme combinado. Obviamente foram limitadas pelas milhares de pessoas que as rodeavam, encolhendo os seus movimentos, mas ainda assim, visto do palco tinha um efeito engraçado.
Após os dois encores o concerto acabou e um fogo de artifício do demónio começou. Parte dos explosivos estavam agarrados à frente do edifício da Câmara, queimando alguma propriedade pública e assustando uma parte da população. Ali debaixo pouco mais pude fazer que abrigar-me sentado numa cadeira com outra cadeira na cabeça, não fosse o tecto do palco queimar e uma bomba incendiária acertar-me na tola. Pareceu-me uma eternidade mas os orçamentos estão mais pequenos que nunca e não terá levado mais de 15 minutos a tudo voltar ao normal.
A chuva entretanto ajudou a afastar as pessoas e pouco depois pudemos seguir para o Hotel. O dia seguinte ia ser passado na Guarda e umas centenas de quilómetros ainda nos separavam de lá.
Chegados ao Hotel um pequeno grupo de resistente ainda foi ao bar ao lado do Hotel beber uma cerveja e disparatar um bocado antes de ir dormir. Depois, empunhando a chave enorme arrastei-me até ao meu aposento, tendo acordado pessoas num raio de 50 quilómetros ao tentar abrir a minha nobre e arcaica fechadura.
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